DOR CRÔNICA

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A dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável que os sujeitos associam a danos nos tecidos, reais ou potenciais. Onde o dano, e portanto a experiência sensorial que o acompanha, se prolonga ao ponto de ser ilimitado e, em muitos casos, é acompanhado por um componente psicológico marcante, torna-se uma dor crônica [9]. Muitos pacientes com dor crônica dependem de analgésicos poderosos e tendem a ter uma recaída em uma situação cíclica de dor, inatividade e depressão.

Oitenta por cento da população mundial tem acesso insuficiente ou inexistente ao tratamento para dor moderada a grave. Neste contexto, a cannabis medicinal tem se mostrado como opção relevante, que tem beneficiado expressivo número de pacientes. Com mecanismo de ação ainda não totalmente compreendido, os canabinoides desempenham papel analgésico no sistema nervoso central.  Canabinoides têm o potencial para atender a essa necessidade. Mesmo com poucos estudos duplos cegos e randomizados envolvendo Cannabis medicinal para tratamento de dor neuropática, meta análise envolvendo 178 pacientes revelou potencial analgésico estatisticamente significativo associado a outros benefícios indiretos: redução de náuseas e melhora do apetite. 

Segundo o médico o anestesiologista e especialista em dor no Sírio-Libanês, o dr. João Valverde Filho, de cada quatro pessoas que sofrem com dor, uma pode desenvolvê-la de forma crônica. Por isso é muito importante ficar atento às dores. Se persistirem e estiverem associadas aos problemas citados anteriormente, é essencial procurar um especialista.  Aproximadamente 80% da população mundial sofre com algum tipo de dor e 30% sentem seus efeitos de forma crônica, segundo estimativas da Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP em inglês).

A dor aguda é aquela que surge repentinamente e tem duração limitada. Geralmente, alerta o indivíduo sobre alguma lesão ou disfunção no organismo, como contusões, cólicas intestinais e queimaduras na pele. Já a dor crônica passa a ser danosa e é reconhecida como sintoma crônico após três meses de sofrimento, mesmo que as causas já tenham sido removidas ou tratadas. “Nestes casos, ela se torna um tipo de doença em que a dor fisiológica (protetora da nossa integridade física) se mantém contínua e degradante para as atividades funcionais” . 

Em julho de 2019, um grupo de cientistas da Universidade de Guelph (Canadá) fez um estudo para encontrar as moléculas da cannabis que ajudam a combater a dor. No estudo publicado na revista Phytochemistry, os pesquisadores explicam como usaram uma combinação de genômica e bioquímica para descobrir como a planta produz canaflavina A e canaflavina B, duas moléculas que são 30 vezes melhores para combater uma inflamação do que a aspirina.

Outro estudo, este da Revista Brasileira de Anestesiologia conclui que o delta-9-tetrahidrocanabinol (D9-THC) puro e seus análogos apresentam aplicabilidade clínica, demonstrando benefícios. O desenvolvimento das substâncias sintéticas puras, buscando a atenuação de efeitos psicoativos indesejáveis aponta para perspectivas favoráveis a sua utilização no futuro

Os pacientes de dor neuropática crônica tem sua capacidade laborativa reduzida, muito perdem a condição de serem produtivos. A falta de trabalho, associada à limitação da mobilidade, contribui para estados depressivos e ansiosos que, na ausência de solução eficaz, colocam o paciente em um ciclo vicioso que alimenta a persistência e intensidade da dor.

Revisão sistemática de 15 estudos relacionados ao uso de canabinoides para a dor neuropática crônica, envolvendo 1.619 pacientes mostrou significativa redução da dor superior a 30% (p = 0,004) em comparação com placebo. Concluiu-se que a terapia com canabinóides pode ser considerada em pacientes selecionados com crônica neuropática dor após falha de terapias de primeira linha e de segunda linha.

A existência de uma base bioquímica sólida para uma ligação entre os receptores canabinoides centrais (CB1 e 2), o principal canabinoide psicoativo THC - um isômero natural do delta-9-tetrahidrocanabinol - e as vias da dor, tornou a exploração clínica plausível em busca de um uso potencial de analgésico. Consequentemente, estudos clínicos iniciais baseados na extrapolação de resultados de pesquisas com animais foram conduzidos sobre o uso de canabinóides para situações de dor. No entanto, até o momento, não surgiram dados sólidos e conclusivos que justificassem o uso de Cannabis como alternativa ao arsenal analgésico.  terapêutico atualmente comercializado e aceito.

Os opiláceos são drogas muito comuns no tratamento de dores. No entanto, a substância provoca forte dependência química e física, além de agredir o fígado. Por outro lado, a maconha medicinal pode trazer os mesmos efeitos analgésicos, sem causar danos nem dependência. Tanto o THC quanto o CBD estão diretamente envolvidos no alívio da dor neuropática, tanto na modulação da transmissão nervosa quanto no benefício anti-inflamatório. O CBD também apresenta efeitos benéficos para alivio dos sintomas de ansiedade e depressão, que com frequência acompanham os pacientes com dor crônica ou dor neuropática. O controle das condições de saúde associadas e do ambiente onde vive o paciente com dor neuropática intensa e crônica são fundamentais para alívio da dor e melhoria da qualidade de vida. 

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Martín-Sánchez et al. Systematic Review and Meta-analysis of Cannabis Treatment for Chronic Pain. PAIN MEDICINE , V.  10, N. 8, 2009.
 

 Inhaled Cannabis for Chronic Neuropathic Pain: A Meta-analysis of Individual Patient Data. J Pain. 2015;16(12):1221-32. 

 Efficacy, tolerability and safety of cannabinoids for chronic neuropathic pain : A systematic review of randomized controlled studies. Schmerz. 2016 Feb;30(1):62-88.

 Antidepressant-like and anxiolytic-like effects of cannabidiol: a chemical compound of Cannabis sativa. CNS Neurol Disord Drug Targets. 2014;13(6):953-60